8.3.1 - 2011
Recicle o lixo.
Pratique a tolerância.
Direito para Todos




PALAVRA DO MÊS
(Resgatamos um texto escrito em 2001, mas que ainda hoje está atual... exceto pelo uso do fax, talvez. Relembrando o escândalo da violação do painel eletrônico de votação do Senado!)
Em virtude dos sucessivos escândalos no Senado Federal, senti-me obrigada a dizer uma palavra sobre o assunto em todas as turmas das instituições nas quais leciono, para levantar a questão e saber o que nós, cidadãos comuns, poderíamos fazer para tentar mudar esse quadro.
A maioria dos alunos disse que não havia nada que nós pudéssemos fazer, pois tais acontecimentos estão se passando em esferas muito altas e nossa voz seria fraca demais para ser ouvida.
Outros, no entanto, disseram que poderíamos e deveríamos enviar mensagens via fax ou email aos congressistas, exigindo um posicionamento firme e ético. Além disso, que deveríamos, nós que somos razoavelmente privilegiados por freqüentar o ambiente universitário, a partir de agora, atuar como agentes multiplicadores de informações sobre a importância do voto, em todos os lugares que estivermos, aproveitando todas as oportunidades, começando em casa. Não com um discurso piegas, mas expondo o valor que o voto tem.
E foi quase unânime a opinião de que este panorama não vai mudar em curto prazo. Quase unânime, porque há os que pensam que isso nunca mudará, pois “os políticos não querem saber de nada, não têm compromisso, a não ser consigo mesmos, e não se preocupam em ser pessoas honradas e de bons princípios”.
Bem, fiquei satisfeita por ter provocado as turmas para o debate.
Em todas as salas, sempre houve alguém para dizer que isso era uma questão culturalmente arraigada no brasileiro.
Dias depois, conversando numa sala de professores com um colega sobre os momentos finais do semestre e o rendimento das turmas, ele, contrariado, me confessou estar desmotivado: “os alunos não querem nada com nada, não têm compromisso com sua formação e com o importante papel social que deverão cumprir no futuro, não têm visão de que o país estará em suas mãos e a eles caberá mudar situações injustas que temos hoje...”
Ele me contou que havia solicitado um trabalho às suas turmas e que muitos e muitos trabalhos tinham vindo exatamente iguais... fato que o deixou bastante aborrecido.
Antes de iniciar a devolução dos trabalhos em sala, ele perguntou o que os alunos achavam do escândalo da violação do painel do Senado, se pensavam que os senadores envolvidos deveriam ser cassados. A maioria disse que sim. “Por quê?”, perguntou o professor. “Porque foram desonestos!”
O professor abanou a cabeça e disse:
“_ Senhores, se a desonestidade é motivo para a cassação, e eu concordo que seja, a grande maioria dos senhores não poderia pleitear uma vaga no parlamento, já que grande número dos trabalhos a mim entregues foram fraudados... Como os senhores esperam que o país mude ?”
Isso me fez pensar...
Quando os alunos me disseram que poderíamos agir de duas maneiras para mudar o panorama político e social de nosso país, fazendo a nossa parte (enviando mensagens e esclarecendo todos os que estejam a nossa volta sobre o valor do voto), achei que era correto.
Depois da história do meu colega, fiquei pensando que essa é a parte mais fácil. Difícil, mesmo, para que o país realmente mude, é modificar o nosso cotidiano.
Todos se queixam e querem ver o país modificado, renovado. Mas desde que isso não mexa com a vida de cada um, desde que não se tenha que deixar de cometer nossos “pequenos pecadinhos que não fazem mal a ninguém”.
Fazem, sim. São danosos à nossa própria integridade.
Será possível construir um país íntegro sem pessoas íntegras?
Será?
